Luiz Gonzaga: características empreendedoras

Referência: José Teles (Continente Documento: Gonzagão)

Aproveitando a comemoração de 100 anos do nascimento do nosso Rei do Baião, este blog faz sua homenagem destacando características do comportamento empreendedor deste grande músico brasileiro chamado Luiz Gonzaga do Nascimento, nascido no dia 13 de dezembro de 1912, na cidade de Exú/PE, no sertão do Araripe (630 km do Recife).

Persistência

Depois de nove anos servindo nas Forças Armadas, Luiz Gonzaga chega ao Rio de Janeiro disposto a pegar o navio rumo ao Recife, e dali retornar à sua terra natal. Com 27 anos, sem formação profissional, ele mudou de ideia. Decidiu arriscar e tentar ganhar a vida como músico, tocando sua sanfona de 80 baixos em bares da zona portuária. Ele imitava os artistas de sucesso do rádio, tocando tango, bolero, valsas. Participava de programas de calouros nas rádios, um deles comandado pelo autor de Aquarela do Brasil, Ari Barroso. Recebia nota 2 ou nota 3. Até que um grupo de universitários cearenses o questionou: “Você com essa cabeça chata, tocando música de gringo? Você não disse que era de Pernambuco, por que não toca umas coisas de lá?”. Lembrou-se das músicas que aprendeu com seu pai Januário, músico e consertador de fole de 8 baixos. A ficha caiu. Voltou ao programa de Ari Barroso tocando Vira e Mexe, um “tema do Norte”. Tirou a nota máxima e recebeu um prêmio de 150 mil réis. Pouco tempo depois assinaria contrato com a RCA para “serviços artísticos de solista de sanfona”.

Exigência de qualidade e eficiência

“Ele (Luiz Gonzaga) criou formas novas e adequadas a um público que comprava discos. Ele foi o cara que, no seu tempo, mais e melhor explorou a riqueza possível dos novos meios técnicos. Ele inventou uma forma de conjunto, um tipo de arranjo, um uso do microfone, ele sugeriu uma engenharia de som. Luiz Gonzaga – como Roberto Carlos – mereceu sua coroa de rei. E a honrou” escreveu Caetano Veloso em carta ao Pasquim em 1970. A formação do trio pé-de-serra (zabumba, sanfona e triângulo) foi uma invenção de Luiz Gonzaga, conforme relatou a Dominique Dreyfus: “Eu, no início da minha carreira, tocava sozinho… Só depois é que precisei de uma banda. Primeiro eu botei o zabumba me acompanhando. Mais tarde, numa feira no Recife, eu vi um menino que vendia biscoitinho, e o pregão dele era tocando triângulo. Eu gostei, achei que daria um contraste bom com o zabumba, que era grave… O que eu criei foi a divisão de triângulo como ele é tocado no baião. Isso aí não era conhecido.”

Persuasão e rede de contatos

O empreendedor utiliza pessoas-chave como agentes para atingir seus próprios objetivos. Luiz Gonzaga era um ótimo intérprete, mas precisa de um compositor para criar a obra musical. “Eu nunca fui nem compositor nem letrista. E sempre fui muito dependente de um bom poeta. Eu não gosto de fazer uma música do início ao fim, e as poucas que eu fiz não se deram muito bem” confessou o Rei do Baião a Dominique Dreyfus. Sua contribuição na composição era dar o mote, sugerir um ritmo ou uma melodia. Ele teve importantes parceiros ao longo da vida, principalmente o advogado cearense Humberto Teixeira (Asa Branca) e o médico pernambucano Zé Dantas (Xote das Meninas). Em muitas das parcerias, Luiz Gonzaga entrava só com o nome. Esse foi o motivo pelo fim da parceria com Humberto Teixeira, que era especialista em direito autoral. Mas ele gravava a música mesmo que o autor não aceitasse registrar a parceria, como é o caso da clássica A Feira de Caruaru, de Onildo Almeida.

Estabelecimento de metas

O empreendedor estabelece metas e objetivos que são desafiantes e que tem significado pessoal. Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira deflagraram o baião e outros ritmos nordestinos que receberiam o termo genérico de forró. Em 1945 Luiz Gonzaga estava decidido de que a “música do Norte” seria sua chave para o sucesso no Sul. Então ele foi ao escritório de advocacia de Humberto Teixeira, no centro do Rio de Janeiro, conforme conta Humberto Teixeira em depoimento a Miguel Ângelo de Azevedo: “Aí ele me falou da ideia de deflagrar a música no Norte nos grandes centros… Naquele dia nós chegamos a duas conclusões muito interessantes. Uma delas é que a música ou o ritmo que iria servir de lastro para nossa campanha de lançamento da música do Norte, a música nordestina no Sul, seria o baião.” Três dias mais tarde, eles terminariam a música-manifesto daquele movimento que estavam deflagrando – Baião – sucesso instantâneo no Brasil inteiro gravado em 1947.

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