Gonzagão: falta de talento para o negócio

Reproduzo abaixo trecho da reportagem do jornalista José Teles para o caderno especial “Os valetes de Lua”, homenagem do Jornal do Commercio ao centenário do Rei do Baião, publicado em Recife no dia 2 de agosto de 2012.

Piloto foi também empresário de Luiz Gonzaga. Ele afirma que durante os anos que conviveu com Gonzagão testemunhou “coisas incríveis”; “Ele foi mal assessorado quase a carreira toda. Os amigos se aproveitavam. Ele não tinha visão de dinheiro. Às vezes fazia show em clube lotado e o empresário dizia que deu prejuízo. Quando Gonzaguinha assumiu a carreira dele, tio Gonzaga teve sua fase profissional. Passou a receber cachê adiantado. Mas até aí ele não podia, por exemplo, ver um circo. Parava e fazia o show dividindo a renda com o dono, às vezes dava toda a renda a ele, quando o circo estava com muita dificuldade. Uma vez cismou de comprar uma Kombi a álcool, ninguém conseguiu convencer ele das desvantagens, da instabilidade, nada. Quando ele queria, tinha que ser”.

Piloto diz que só considera a carreira do tio até 1988, quando ele ainda conseguia fazer show. “O último São João dele foi o de 1988, em Heliópolis, na Bahia. Em 1989, ele estava no bagaço. Engraçado ele fazer o último show dele daquele jeito, de cadeira de rodas, no Centro de Convenções, onde nunca havia tocado antes. Aliás, ele nunca ganhou dinheiro em Pernambuco. Ele era valorizado na Paraíba, em Alagoas, em Sergipe. Em Pernambuco tinha muita malandragem para ele cantar de graça. Ele passou a cantar mais no Recife por causa de Edelzuita (segunda mulher de Gonzagão, com quem começou o romance ainda casado com dona Helena). Às vezes chegava em Caruaru e ia para o Recife de ônibus mesmo, sozinho”.

O que Piloto observou na convivência com Luiz Gonzaga foi um artista que não tinha a exata dimensão de sua importância, que não tinha apego a dinheiro, e fazia aplicações desastrosas. Disto se aproveitavam desde pedreiros que construíram sua casa no Parque Aza Branca, até políticos, para quem costumava cantar em comícios e inaugurações. Um deles, dos mais conhecidos no sertão – é Joquinha que conta -, desentendeu-se com Gonzaga e o tratou por “nego safado”. Ele prefere não citar nomes.

Piloto cita um exemplo dos maus negócios feitos por Luiz Gonzaga no episódio do automóvel Ford Del-Rey que lhe foi presenteado pela gravadora RCA, pela qual lançou quase a totalidade de sua obra: “Ele sempre teve um relacionamento polêmico com a RCA, chegou a sair de lá porque não lhe deram um empréstimo. Uma vez, já perto de ele ir para a Copacabana, no final dos anos 1980, ele me chamou para ir a um jantar oferecido pela gravadora, em um restaurante no Flamengo. Quando chegou lá, lhe deram a chave de um Del-Rey, que havia sido lançado.Ele ficou todo orgulhoso. Antes de ir embora, pediram que ele assinasse uns papéis. Fomos embora já no Del-Rey. Dias mais tarde ele descobriu que o valor do carro seria descontado e que assinou por mais dez anos com a gravadora”.

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